quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Socialismo e liberdade

"O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo." (Karl Marx, "Uma Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel", 1844)

O que Marx queria dizer ao definir a religião como o "ópio do povo", é que a religião funciona no sentido de pacificar os oprimidos; e a opressão é definitivamente um erro moral. A religião -- dizia ele -- reflete o que falta na sociedade; é uma idealização das aspirações do povo que não podem ser satisfeitas de imediato. Marx clamava pela "abolição da religião como felicidade ilusória do povo." Ele queria que o povo buscasse a "felicidade real", que é a liberdade e a realização neste mundo, lutando contra a opressão capitalista.

Entretanto o socialismo acabou degenerado nas experiências ocorridas na ex-URSS e no Leste Europeu. A primeira experiência de construção do socialismo fracassou há 20 vinte anos, mas até hoje a esquerda socialista não tirou nenhuma lição disso. Em primeiro lugar, o stalinismo foi um câncer, que degenerou o socialismo ao ponto de torna-lo semelhante ao nazi-fascismo. Assassinou milhões de pessoas, incluindo toda a "velha guarda bolchevique", e até mesmo colaborou com a conquista da Polónia pela Alemanha nazista, tanto que alemães e soviéticos partilharam o país em 1939.

" ... Stalin passa a implementar medidas de coletivização forçada da agricultura, apoiadas numa duríssima repressão contra os camponeses. Sabe-se hoje que essa política voluntarista e duramente coercitiva - que o próprio Stalin chamou de "revolução pelo alto" - levou à morte cerca de 10 milhões de camponeses. Por outro lado, a industrialização acelerada promovida pelos famosos planos qüinqüenais, embora tenha tido importantes resultados quantitativos, produziu fome e gerou opressão sobre os trabalhadores urbanos. Conheceu-se assim, na URSS dos anos 30, um período de intensa superexploração da força de trabalho, tanto camponesa quanto operária. Tudo isso levou à construção de um regime de terror na União Soviética."

(Carlos Nelson Coutinho; em "Atualidade de Gramsci")


O stalinismo precisa ser combatido com o mesmo empenho que combatemos o nazi-fascismo.

"O stalinismo foi a maior tragédia do povo russo e de todo o povo do Leste Europeu, afora as guerras. Não podemos mais ter receio de afirmar isso. Havia um temor de que isso parecesse diminuir o mérito da resistência do povo soviético ao nazismo. Não diminui. Os vestígios de stalinismo, indícios que sejam, são nefastos, atentados a qualquer idéia de vida democrática."

(Emiliano José; em "O stalinismo e sua trágica herança")


Em segundo lugar, não podemos continuar nos fazendo de cegos para não enxergar a responsabilidade de Lenin e dos bolcheviques no surgimento da bestialidade stalinista. Lenin deturpou o marxismo ao reinterpretar a ditadura do proletariado como ditadura do partido comunista, estabelecendo o regime de partido único que resultou no stalinismo. Devemos nos recordar das criticas de Rosa Luxemburgo, principalmente no clássico "A Revolução Russa", escrito em 1918.

Rosa Luxemburgo, no clássico "A Revolução Russa", criticou os desvios autoritários promovidos pelos bolcheviques, alertando para as consequencias desse autoritarismo, e acabou sendo profética pois tudo o que disse viria a acontecer com o stalinismo.

"A liberdade apenas para os partidários do governo, só para os membros de um partido - por numerosos que sejam - não é a liberdade. A liberdade é sempre, pelo menos, a liberdade do que pensa de outra forma (...). Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida acaba em todas as instituições públicas, vegeta e a burocracia se torna o único elemento ativo. [...] Se estabelece assim uma ditadura, mas não a ditadura do proletariado: a ditadura de um punhado de chefes políticos, isto é uma ditadura no sentido burguês".

(Rosa Luxemburgo; em "A Revolução Russa")


Rosa Luxemburgo deixou claro em "A Revolução Russa", que ditadura do proletariado não é a ausência de democracia, muito menos que seja obra de uma minoria agindo em nome da classe trabalhadora.

"A democracia socialista começa com a destruição da dominação de classe e a construção do socialismo. (...) Ela nada mais é que a ditadura do proletariado. Perfeitamente: ditadura! Mas esta ditadura consiste na maneira de aplicar a democracia, não na sua supressão. (...) esta ditadura precisa ser obra da classe e não de uma pequena minoria que dirige em nome da classe".

(Rosa Luxemburgo; em "A Revolução Russa")


Na atual sociedade capitalista, onde o poder da burguesia não se encontra localizado nos palácios, mas espalhado por toda sociedade(sindicatos, partidos, escolas, igrejas, etc), é loucura ficar fazendo pregações em favor de luta armada ou coisas afins, como faz muita gente da extrema-esquerda.

Antes de se pensar em revolução, é preciso trabalhar para disputar e conquistar a hegemonia na sociedade. Como disse Gramsci, nas sociedades capitalistas de tipo ocidental, a revolução arde em fogo lento, onde o proletariado deve assumir a "guerra de posição", travando a luta contra-hegemonica através de seus intelectuais, contra os intelectuais da burguesia. A classe trabalhadora precisa ser dirigente, antes de se tornar dominante, mas isso os debilóides da extrema-esquerda não sabem.

"[...] no Ocidente, onde a 'sociedade civil' é extremamente articulada com a proteção do 'Estado político', a luta será longa, será uma enervante 'guerra de posição' [...]. É preciso aprender todos os métodos mais elaborados dos adversários, não deixar-se surpreender despreparados ou atrasados nessa revolução que arde em 'fogo lento', abandonar o primitivismo econômico e mecanicista precedente e desenvolver a capacidade de previsão e de guia dos acontecimentos, chamando os intelectuais para colaborar com tal empreendimento histórico e colmatando continuamente as distâncias que se formam entre as linhas estratégicas dos vértices e a capacidade de compreensão e de recepção da base" (Antonio Gramsci)

Nenhum comentário:

Postar um comentário